A LOUCURA DA CRUZ

“Nós anunciamos Cristo e Cristo crucificado” (1Cor 1,23), disse o Apóstolo São Paulo. Neste dia do catequista, é fundamental que esta palavra ressoe em nosso coração de anunciadores do Evangelho, porque ela ilumina todo o nosso ministério.

Este domingo nos convida a descobrir a “loucura da cruz”. O acesso à vida plena em Cristo passa necessariamente pelo caminho do amor que “toma a iniciativa, persevera até o fim e não espera recompensa”, isto é, passa pelo dom da vida até a morte cruenta, se preciso for. A multidão dos mártires de Cristo dá testemunho disso. Passa também pelo martírio (testemunho) cotidiano do oferecimento da vida inteira como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12, 1b). Esse é o nosso culto espiritual, amorosa resposta à bondade infinita de Deus que nos enviou seu Filho como Salvador e Redentor, buscando corresponder ao seu amor por uma vida santa (cf. Rm12,1-2).

Assim, a vida cristã não pode ser outra coisa que a constante busca de identificação com Cristo ou vida de santidade. O novo Diretório Geral para a Catequese nos recorda que “a santidade se constitui como portadora de um programa de vida que os catequistas são chamados a seguir com constância e fidelidade” (Introdução) e que “evangelizar não significa levar uma doutrina, mas em fazer presente e anunciar Jesus Cristo” (n. 29).  “Despertada a fé, a catequese de iniciação deve estar a serviço daqueles que já conheceram Jesus Cristo e sentem crescente o desejo de conhecê-Lo mais intimamente, expressando uma primeira opção pelo Evangelho” (n. 34).

A integridade do querigma da fé deve ser anunciada aos catequizandos, na explicitação do Credo e no convite à vida de crescente união com Deus, pela oração de escuta e meditação de sua Palavra, preparando-os assim à graça dos sacramentos.

Todo o processo de discipulado cristão não se faz sem renúncias, sem tomar a própria cruz por amor a Cristo (cf. Mt 16,24); sem a capacidade de deixar tudo para buscar o tesouro no campo ou a pérola preciosa do Reino (cf. Mt. 13). São Pedro custou a entender essa realidade e nós também, às vezes, como tantos profetas, custamos a entendê-la, diante do aparente silêncio de Deus e das tentações de desânimo, de vanglória e de poder. Mas como o Profeta Jeremias (Jr 20,7-9), ganharemos a força na súplica e na fidelidade à Palavra Viva de Deus.

Somos ministros, isto é, servidores de Cristo e, como tais, devemos buscar ser como o Mestre, que lavou os pés aos discípulos (cf. Jo 13,12) e afastou a Pedro que o buscava desviar do caminho da cruz com palavras fortes. “Vai-te para longe satanás (adversário)! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas dos homens! ” (Mt 16, 23)

Não podemos correr o risco de anunciar um evangelho adocicado, sem exigências e sem cruz. Não seria o Evangelho de Cristo, o Evangelho da libertação. Não podemos ter medo de anunciar a todos, com misericórdia e mansidão, os mandamentos de Cristo, buscando respeitar o tempo e o caminho de cada um. O jugo do Senhor é suave e seu fardo leve (cf. Mt 11,30).

A vida cristã é como a subida de uma escada (São João Clímaco) ou de um monte escarpado (São João da Cruz). Por este motivo, o Apóstolo São Paulo nos convida a nos revestir da armadura de Deus: “Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz. Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus” (Ef 6,13-17).  E, na Carta aos Romanos, ainda escreve: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, pela renovação espiritual da vossa mente, para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito” (Rm12,2).

Mas como somos fracos, rezemos com Santo Agostinho:  “Senhor, concedei-me a graça de fazer o que pedis de mim, depois pedi-me o que vos bem parecer! ”

Não nos esqueçamos de implorar o auxílio de São José e Nossa Senhora, Mãe e Modelo dos Catequistas. Ela esteve na pobreza de meios em Belém, no silêncio laborioso de Nazaré, fiel discípula de seu Filho na pregação, de pé junto à cruz, perseverante na solidão do Sábado Santo, testemunha da Ressurreição e orante na espera do derramamento do Espírito em Pentecostes. É a Mãe da Igreja e de Todos os Povos.  E que, de junto de Deus, Maria e José enviem sobre todos os catequistas e catequizandos a força de suas bênçãos, para que, passado este tempo de pandemia, possamos, entusiasmados, isto é, cheios de Deus, retomar os nossos trabalhos para que Jesus seja mais conhecido e mais amado.

+ Miguel Angelo Freitas Ribeiro

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