A LUZ QUE VEIO AO MUNDO

Celebramos novamente o Natal, de modo diferente dos outros anos, em razão da pandemia. Mas é o mesmo Natal de Jesus! Este tempo de distanciamento social, de faces encobertas pelas máscaras de tecido e cuidados de higiene que andavam esquecidos, pode nos fazer descobrir o verdadeiro sentido desta festa universal. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós! ” (Jo 1,14)

A família é o lugar para melhor celebrarmos o Natal de Deus que veio se fazer um de nós no seio de uma família. Em nossa pequena família, a família dos filhos de Deus na Igreja e a grande família universal, porque ao fazer-se Filho do Homem, Deus nos tornou a todos seus filhos.

O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu! ” (Is 9,1) Nós também vimos a luz de Deus brilhando no rosto de um menino’– certamente puderam dizer, naquele dia, os pastores e podemos nós repetir suas palavras, fazendo coro às suas vozes.

A Luz de Deus sempre brilha no rosto das crianças. Pena que muitas vezes se ofusca, em razão de tantas falsas luzes intermitentes que se acendem na vida de cada um.

A luz de Deus é grande porque é verdadeira. Nada mais verdadeiro que a expressão de um menino, em quem não se instalou ainda o medo e a falsidade. Quando este menino é Deus que se fez homem, então sua luz será sempre grande e estável, porque a luz de Deus não se apaga. A luz de Deus brilha para sempre no meio dos homens desde que o Verbo se fez carne no seio da Virgem Maria e veio brincar conosco, devolver-nos a ternura da infância e a alegria do paraíso, onde Adão passeava com Deus à brisa da tarde (cf. Gn 3,8).

Ele fez de nossa casa, de nossa vida, um jardim, onde podemos passear com Ele e desfrutar de sua alegria. Seu Evangelho é o Evangelho da alegria, que faz com que a Terra e o Céu se unam num só cântico de glória para espalhar a boa notícia: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens por ele amados! ” (Lc 2,14).

A sua alegria advém da paz Ele que nos traz: “Eu vos deixo a paz eu vos dou a minha paz” (Jo 14,27). Porque Ele é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). O pecado produz as guerras, lança a divisão, dissemina a injustiça e a fome, faz crescer as pestes e reinaugura sempre o reino da morte.

O presépio, o curral, símbolo da humanidade decaída como o palácio arruinado de Davi no oprimido reino de Israel e que fora pátio de tantas infidelidades, foi feito morada esplendorosa de Deus, revestido de humildade: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um salvador, que é o Cristo Senhor. ” (Lc 2,11)

Rejeitado pela cidade orgulhosa, que não lhe tinha lugar ou hospedaria, Deus constrói o seu reino a partir dos simples. O primeiro anúncio de Natal foi feito aos pastores e não aos reis. Os magos só alcançarão o Menino porque deram crédito à simplicidade do sinal de uma estrela no céu e O buscavam na humildade de coração, antes de se porem a caminho. Jesus mesmo é a Estrela que surge de Jacó (cf. Nm 24,17) e atrai a si os magos do Oriente. Por isto, Maria proclamou que Deus “derrubou os poderosos de seus tronos e elevou os humildes” (Lc 1 52). O presépio de Jesus afasta, pois, toda presunção humana.

Ricos ou pobres devemos passar por esta porta de curral, aprisco onde Deus reúne os que acolhem o seu Nome e obedecem à sua Palavra: “A todos que a receberam, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome! ” (Jo 1, 12)

Deus nasce do milagre de uma Virgem que se torna Mãe, sem concurso de homem, pelo poder do Espírito Santo.

O Criador de tudo e Rei do Universo tem como abrigo uma gruta em Belém da Judéia, que servia de curral para as ovelhas; como berço, uma manjedoura, comedouro de animais, e como companheiros, um boi e um burro. Mas, ao seu lado, duas pessoas cuidam do pequeno: sua Santa Mãe, que com cuidado e ternura O envolve em panos, cuidadosamente preparados, enxoval de neném para o Senhor do Céu, e São José que, embevecido, adora o Filho do Mistério, e O adota como seu filho, dá-lhe o nome divino de Jesus, “Deus Salva” (cf. Mt 1,21), e há de educá-lo na Lei do Senhor e na profissão de homem.

Que mais dizer, senão renovar no presépio a nossa certeza de que com a humanidade inteira possamos “abandonar a impiedade e as paixões mundanas e viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade, aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória de nosso grande Deus e salvador, Jesus Cristo? (Tt 2, 12-13).

Que mais necessitamos, todos os dias, do que equilíbrio, para bem julgar cada ação nossa e bem cuidar de nossa salvação e da salvação de todos? De justiça em nossas relações humanas e sociais, isto é, de bem cuidar e amar o próximo? De piedade que é o cuidado para com as coisas de Deus, recordando-nos que nós somos suas criaturas e a Ele pertencemos? (Cf. Sl 99,3)

Que o Menino do Natal venha de fato morar em nosso coração e nele encontre abrigo. Belém, casa do pão, se renova em cada Eucaristia! Que José e Maria nos ajudem a fazer de nossa vida um presépio de amor.

Então, nossa vida, a de nossas famílias, de nossas comunidades e a vida do mundo se revestirá de nova luz, da Luz de Deus “que ilumina todo o homem que vem a este mundo” (Jo 1,9). Sejamos missionários de sua Luz! Amém.

+ Dom Miguel Angelo Freitas Ribeiro

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