COMO NÓS PERDOAMOS

Muitas vezes podemos rezar o pai-nosso sem nos ater a seu significado. A liturgia deste domingo nos oferece um comentário de Jesus à comprometedora petição: “Perdoai as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. O ensinamento de Jesus se coloca após a pergunta de São Pedro sobre se devia perdoar o irmão até sete vezes e, seguidamente, à afirmação de seu primado na Igreja e à obrigação da correção fraterna. O texto faz parte do sermão sobre a Igreja. Pedro pergunta, segundo o costume de seu tempo. Jesus respondeu-lhe que “não sete vezes, mas setenta vezes sete” (Mt 18,22) ou 490 vezes, isto é, sempre. E contou uma parábola intrigante, iniciando-a dizendo que deste modo é o Reino dos Céus.

Um rei que decide acertar as contas com seus credores. A um que lhe devia uma enorme fortuna (10.000 talentos ou moedas de ouro) e, encarecidamente, pediu-lhe um tempo e tudo pagaria, o rei perdoou-lhe toda a dívida. Mas este mesmo servo não quis perdoar a seu companheiro uma dívida de cem moedas (denários), equivalente a 100 dias de trabalho, e o jogou na prisão dos devedores.

Um talento equivalia a 6.000 denários. Logo o rei soube do acontecido e chamou o servo cruel, que lhe devia o equivalente 160.000 anos de trabalho, cobrando-lhe o que fizera com o seu colega, por lhe dever apenas o equivalente a 100 dias e jogou-o na prisão até que tudo fosse pago, entregando-o aos torturadores. Sua dívida era impagável.

Assim, a dívida de cada um de nós para com Deus, infinitamente bom e misericordioso, será sempre impagável. “Nele vivemos, nos movemos e somos (At 17,28)”  e não somos mais que administradores dos seus bens que dele recebemos gratuitamente (cf. 1Cor 4,1) como aqueles servos. 

 Por sua cruz, Cristo perdoou-nos a dívida impagável que temos com Deus. “Ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas” (Is 53,5 – 1 Pd 2,24).

Em sua cruz, o Senhor nos mostrou o máximo de sua misericórdia, perdoando ao ladrão por um único ato de arrependimento e de amor. Nela realizou-se o que havia já anunciado e feito na Última Ceia, ao tomar o cálice, apresentando-o como o “Sangue da Nova e Eterna Aliança” (Lc 22,20). Não é, pois, sem razão que Pedro, citando o Livro dos Provérbios, nos recorda que “o amor cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4,1).

Mas, esta parábola nos coloca diante de uma questão inevitável e da qual muitos desejam se esquivar. A possibilidade da condenação eterna, porque, com a medida com que medirmos o irmão também seremos medidos (cf. Mt 7,2). Guardar rancor e não perdoar é construir o inferno já nesta vida. Precisamos, no entanto, saber que perdoar não é esquecer. Só Deus é capaz de esquecer completamente as nossas ofensas e pecados.

Perdoar é desejar o bem, é amar sempre, sem esperar retribuição. Assim, o Senhor nos ordena: “Amai os vossos inimigos e rezai pelos que vos odeia e vos perseguem” (Mt 5,44).  Se não esquecermos os que nos ofenderam e a memória nos trair, poderemos sempre invocar a misericórdia de Deus em favor do irmão e em próprio nosso favor. Deus está sempre disposto ao perdão, como o pai da parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32).  A meditação sobre a nossa morte ainda nos ajudará, como recorda o Livro do Eclesiástico: “Lembra-te do teu fim, e deixa de odiar, pensa na destruição e na morte e persevera nos mandamentos e não guarde rancor ao teu próximo” (Eclo 276-8).

Busquemos o auxílio de Deus no sacramento da Reconciliação.Coloquemos os que nos fizeram ou fazem o mal no Coração ferido de Jesus. Como a Senhora das Dores que, silenciosa, permaneceu de pé junto da cruz de seu Filho, compadecendo-se com Ele. E rezemos sempre: Meu Jesus, misericórdia!

+ Miguel Angelo Freitas Ribeiro

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