COMPROMETER-SE COM CRISTO E COM OS IRMÃOS

Quando Jesus disse que Ele era “o pão descido do céu” e sua “carne dada para a vida do mundo”, os judeus não puderam compreendê-Lo. O sinal da multiplicação dos pães fora para eles apenas um sinal material, em que, certamente, reconheciam a presença de Deus que saciava o seu povo, mas não conseguiam ir além dessa compreensão.  Mas Jesus falava do pão como sua própria pessoa, sua carne dada como vida ao mundo.

Também para os discípulos, era difícil acolher o mistério no qual deveriam ser mergulhados, e muitos deixaram a Jesus, escandalizados. Eles só perceberão o alcance da palavra de Jesus quando, na Última Ceia, Ele tomou o pão e o cálice e lhes disse ser seu Corpo dado e Sangue derramado para o perdão dos pecados, e dos quais deveriam tomar para terem a vida eterna. 

Tomando com fé este sacramento, participamos da vida que Ele nos comunica, da sua vida divina: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 56). Comer da carne do Filho do Homem é ter a vida em nós, a vida verdadeira que esperamos seja levada à plenitude no céu.Antes disso, podemos experimentar, com Santa Gertrudes Comensoli, a Eucaristia como nosso “paraíso na terra”.

Não comungamos de um símbolo, mas da presença real e substancial do Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, Verbo de Deus que se fez homem como nós, para nosso alimento e salvação. Só quem se deixa conduzir pelo Espírito Santo pode penetrar na grandeza desse mistério: “Venha a fé por suplemento se o sentido nos faltar”, cantamos com o Doutor Angélico, São Tomás de Aquino.

Ao consagrar pão e vinho separados, Jesus anunciava sua morte violenta na cruz e a ferida que o nosso pecado lhe causou, mas que se tornou causa de nossa redenção.  Ele é o novo e permanente maná que nos alimenta no deserto da vida, como o antigo maná experimentado pelos hebreus no deserto. Ele é o rochedo de onde brotou a água e o sangue salutares dos sacramentos, ao ter aberto o seu peito pela lança do soldado. Para que saibamos que “nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Dt 8,3b).

As palavras da consagração na Missa são palavras de Deus, que se serve de cada sacerdote, ungido para a consagração do Corpo e Sangue do Senhor, e para que se perpetue até o fim dos tempos a memória de sua Paixão, Morte e Ressurreição gloriosas.

Porém, esta festa não é só a festa do Sacramento da Eucaristia. É a festa da Igreja, a festa de todos nós. A Igreja é também Corpo de Cristo. Por este motivo, seu alimento não pode ser senão o Cristo mesmo, como nos ensina o Apóstolo Paulo na 1ª. Carta aos Coríntios: “Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo, pois todos participamos deste único pão ” (1Cor 10,17). Como muitos grãos de trigo esmagados formam um só pão, como muitos bagos de uva se tornam vinho, de todos os que creem, o Pai, pelo Espírito Santo que nos foi dado no Batismo, nos faz uma só Igreja, um só e mesmo Corpo de Cristo.

Cremos com toda a Igreja que Jesus está realmente presente no Santíssimo Sacramento e O levamos triunfalmente pelas nossas ruas, para manifestar a nossa fé comum. Este ano nos será impossível fazer nossas belas procissões. Mas Jesus continua presente entre nós, em todos os sacrários da terra e novamente presente em cada Missa. De nossas casas, podemos elevar a Ele nosso preito de louvor e adoração.  Sua benção não é maior quando dada das ruas ou do escondimento de nossas igrejas ainda fechadas.

Impedidos pela pandemia de covid-19 de sair de casa, nossa fé transpõe as paredes e os tempos.  Não estamos sem Eucaristia, muitos estão impedidos de comungar sacramentalmente. Nossa comunhão com o Senhor se realiza também de outras formas: pela profissão de fé, pelo desejo, pela caridade com os membros de seu corpo e pela oração e solidariedade com todos os que sofrem no mundo inteiro.

Se a pandemia global tornou abertas as feridas do mundo injusto em que vivemos, que o Senhor abra nossos corações aos irmãos, sobretudo para com os sofredores e pobres.

Que Nossa Senhora de Oliveira, Mãe da Eucaristia, e São José nos ajudem em nosso percurso de conversão.

+ Dom Miguel Angelo Freitas Ribeiro, por ocasião da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

* – Foto: Sidney de Almeida (Procissão de Corpus Christi 2019, em Oliveira)

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