CONSERVAR A UNIDADE DO CORPO

Homilia de Dom Miguel Ângelo Freitas Ribeiro na Missa da Unidade, celebrada no dia 29 de março de 2018, na Catedral de Nossa Senhora de Oliveira.

Esta Missa de hoje nos remete sobretudo ao serviço sacerdotal de Cristo. Ele é o único e eterno sacerdote. O sacerdócio dos fiéis, seja o sacerdócio comum dos leigos,  e este ano, celebramos o Ano do Laicato – seja o ministério sacerdotal, exercido pelos padres e bispos, é participação no único e mesmo sacerdócio de Cristo, dom imerecido e sem medida que o Senhor quis fazer aos membros do seu corpo místico.

Somos membros do corpo místico de Cristo. Ele é a nossa cabeça (Ef 4). Os membros devem se deixar governar pela cabeça, por isso, devemos nos esforçar em corresponder à santidade da cabeça que é Cristo. Ele é o autor de toda santidade humana, pela redenção que nos conquistou pela sua cruz e ressurreição.

Os membros devem estar de tal modo unidos que o corpo inteiro trabalhe em perfeita sintonia   como em uma orquestra bem afinada. Quando um membro se destoa da unidade ou adoece, todo o corpo sofre. O mesmo acontece com o corpo espiritual. Se o pecado nos desfigura, toda a Igreja sofre o nosso pecado, assim como toda a Igreja se enriquece, quando a graça encontra em nós acolhida e solo fecundo para a produção de seus frutos.

A unidade do corpo se funda na caridade de Cristo que nos constrange, impele, impulsiona ao amor, como diz o Apóstolo, porque um só morreu por todos (cf. 1Cor,5,14). Funda-se na presença do Espírito Santo em nós, divina herança que Jesus nos deixou ao morrer na cruz. “Ele entregou seu Espirito”, diz São João (Jo 19,30c).

E os frutos da Graça, os frutos do Espirito em nós são amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5, 22-23). Esses são os resultados de uma vida guiada pelo Espírito Santo como a vida de Jesus, o ungido do Pai: “O Espirito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção” (Lc 4,18), disse Jesus em Nazaré, aplicando a si as palavras do Profeta Isaías.

Ao mesmo tempo em que nos concedeu o seu Espírito Santo, ao entregar sua vida ao Pai por nós, o Senhor denunciou também toda a violência humana e “pregou na cruz o documento de nossa condenação” (Cl 2,14) ao pedir perdão ao Pai pelos que o condenavam, isto é, por todos nós (Lc 23,34).

A Campanha da Fraternidade deste ano nos convocou à superação da violência a partir do único ponto capaz de lhe arrancar as raízes: a consciência de que somos todos irmãos e filhos do mesmo Pai (Mt 23,8), embora todos diferentes uns dos outros.

O acolhimento das diferenças nos faz capazes de nos enriquecermos com a diversidade de dons e nos respeitarmos em nossas fragilidades. Ninguém é igual porque Deus nunca se repete, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8) e o amor é sempre criativo.

Este Ano do Laicato, convocado pela CNBB, nos convida a olhar para as diferenças com afeição misericordiosa. A unidade não significa a eliminação das diferenças, mas sua integração, o acolhimento da multiplicidade que existe entre as pessoas, os dons e os ministérios, na certeza de que é o mesmo Espírito que nos anima a todos (cf. 1Cor12,11): diversidade nas comunidades, nas pastorais, nos grupos, nos movimentos, nos carismas, nos membros do presbitério, como em um jardim variegado e belo e não como motivo para atritos e dificuldades. Todas as dissenções se superam com uma conversa respeitosa e amiga, com o reconhecimento das próprias faltas e a caridade para com as alheias.

O Senhor que se revelou o enviado do Pai nos envia a todos, padres e leigos para o serviço da evangelização: “curar as feridas da alma, pregar a redenção aos cativos e a liberdade para os que estão presos, consolar os que choram… proclamar o ano da graça, isto é, o ano da misericórdia ” (Lc 4,18-19). Se tudo isso se refere à caridade, a caridade deve começar em casa com aqueles que nos são próximos.

Os óleos consagrados nesta celebração solene recordam-nos a caridade de Cristo que, pelo batismo nos fez irmãos, pela unção dos enfermos nos conforta e, pela suprema caridade de seu coração, nos fez sacerdotes com ele, para oferecer cada dia nossos corpos como sacrifício agradável a Deus por uma vida digna dele (Rm 12.1), e unge alguns dentre o seu povo para o sagrado ministério de consagrar o Pão do seu Corpo e o Cálice de seu Sangue e perdoar os pecados, estando à frente das comunidades como sinal de sua misericórdia e anunciadores autorizados de sua Palavra.

Por tudo isso, sejamos gratos; por tudo isto, nos prostremos em reverente adoração; por tudo isso, demos graças ao Pai que nos deu, em Cristo, não somente o Salvador, mas o irmão que conosco caminha até a plenitude, o dia em que Deus será tudo em nós e nós totalmente nele (cf. 1 Cor 15,28).

E não nos esqueçamos, em tempo de tantas crises e desafios, de pedir, insistentemente ao Senhor que nos envie operários para a messe, santos operários que, a cada dia, nos recordem que somos todos irmãos, somos todos iguais em dignidade, assim como diferentes nos dons que nos foram concedidos. Não nos esqueçamos de suplicar o dom da paz que se semeia na caridade.

Que a Santa Virgem Maria, Senhora de todas as Virtudes, a Senhora da Oliveira e São José, seu esposo castíssimo, nos encorajem, em nosso caminho com sua sempre preciosa intercessão. Amém.

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