CORAÇÃO DE JESUS: AMOR HUMANO-DIVINO

Hoje celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus.  Toda devoção ao Senhor Jesus é explicitação de um ponto da revelação contida nos Evangelhos, seja à sua Divina Infância, seja à sua vida pública, como a Jesus Mestre; seja aos vários aspectos de sua Paixão, Morte, Ressurreição a Ascensão gloriosa à destra do Pai, levando consigo nossa humanidade. Mas, nenhuma delas concentra, de modo tão pleno e admirável o mistério de Cristo, como a devoção ao Coração de Jesus, que resume em si todo o mistério da Encarnação. O Verbo se fez coração humano e habitou entre nós (cf. Jo 1,14).

Ela encontra sua base mais fecunda no Evangelho segundo São João, exatamente que repousou sua cabeça no Coração de Jesus e sentiu o seu palpitar angustiado na Última Ceia, diante da iminente crucificação e da traição de Judas Iscariotes. Naquele momento, o Senhor instituiu a Eucaristia, Sacramento de seu Coração todo entregue a nós, no seu Corpo dado e Sangue derramado, nos sinais do pão e do vinho.  Ele antecipava no sacramento o esmagar-se de sua vida pela Redenção do mundo, associando a si os sacerdotes e os que cressem em sua palavra, discípulos pelos quais orou ao Pai: “Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. Eu Me consagro por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade” (Jo 17,19).

             Se a devoção ao Divino Coração foi propagada de modo singular por Santa Margarida Maria Alacoque e seu diretor espiritual São Cláudio de la Colombière, ela se enraíza nos evangelhos. Jesus mesmo chamou a atenção sobre o seu coração como símbolo do seu amor humano-divino pela humanidade. “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11, 28-30).

De pé, junto à cruz, com Maria, Mãe de Jesus, por Ele nos dada como Mãe Universal e Refúgio dos Pecadores, São João percebeu a grandeza desse sinal, ao relatar o alancear do peito do Senhor pelo soldado que lhe feriu o lado, e de onde jorraram para sempre as Fontes da Salvação. Impressionou tanto ao Evangelista o rasgar-se do Coração de Cristo, que o percebeu como último dom dado aos homens antes da Ressureição. Após sua vitória sobre a morte, Jesus explicitou o dom do Espírito Santo prometido, já entregue na cruz, quando se se entregou totalmente ao Pai, esvaziado até o mais profundo de sua humanidade. Por isso escreveu o Apóstolo: “Aquele que viu é que dá testemunho e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que também vós acrediteis” (Jo 19, 36-37).  Demonstrou assim que o lado aberto de Cristo pertence à suprema revelação do amor de Deus, manifestado em seu Filho Jesus: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

            Grande místicos medievais, antes de Santa Margarida Maria, já se deliciavam na contemplação do Coração rasgado de Cristo. A busca da sagrada lança pelos antigos cristãos, já demonstrava este caminho sem igual para nossa consolação. No Brasil, São José de Anchieta foi grande devoto do Coração de Jesus. O servo de Deus Padre Gabriel Malagrida fundou uma congregação com o título glorioso do Coração de Jesus.

            O coração, símbolo do amor humano, em Jesus sintetiza o amor de Deus, que nos enviou seu Filho para salvar o mundo. Por ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Jesus nos ama com coração humano-divino, também na sua Ressurreição. Não sem razão, na aparição a São Tomé, apresentando-lhe as suas chagas, Jesus lhe ordenou que metesse a mão na chaga de seu lado. Por este gesto, Tomé reencontrou a fé e mostrou-nos o lugar de nosso repouso.

            Na noite do dia 16 de junho de 1675, enquanto Santa Margarida rezava diante do Santíssimo Sacramento, Jesus apareceu-lhe mostrando-lhe as suas chagas e, apontando para seu Divino Coração, lhe disse: “Eis o Coração que tanto amou os homens, que não poupou nada até esgotar-se e consumir-se, para testemunhar-lhes seu amor. Como reconhecimento, não recebo da maior parte deles senão ingratidões…”  A partir daí as imagens mais conhecidas do Coração de Jesus apontam, com uma das mãos, para o seu Coração ferido e com a outra, para nós. Aprecio vê-las sobre o sacrário: enquanto nos convida ao divino repouso, aponta-nos o Sacramento do seu amor, de onde nos espera e nos convida a crescer na intimidade com Ele até que “habite pela fé” em nossos “corações, arraigados e consolidados na caridade”, a fim de que possamos, “com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo o conhecimento, e sejamos cheios de toda a plenitude de Deus” ( cf. Ef 3, 17-19).

Esta solenidade nos pede amor e reparação que só podem ser dados a Deus pela santidade de nossas vidas. Neste Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes, não nos esqueçamos de pedir que o Senhor nos mande “sacerdotes segundo o seu coração” (Jr 13,15) e que todos os homens descubram esta inesgotável fonte de riqueza espiritual. Em tempo de incertezas, em razão da pandemia e da crise política que vivemos, a uma só voz elevemos ao Coração de Cristo a nossa prece confiante: “Coração Divino de Jesus, providenciai! Coração de Jesus, eu confio em Vós! Meu Jesus, misericórdia! ”

+ Dom Miguel Angelo Freitas Ribeiro

* – Foto: Romário Serafim (Pascom Paróquia Santo Antônio de Pádua)

3 comentários sobre “CORAÇÃO DE JESUS: AMOR HUMANO-DIVINO

  1. Dom Miguel. Muito bem explicado. Hoje em quantas casas tem a imagem ou o quadro do sagrado coração de Jesus e dê Maria? Nós herdamos a imagem da vovó zica e o quadro também e em BH temos o quadro que era da tia Arminda irmã do papai. São relíquias que guardamos no coração . Dá vontade de sair de casa em casa rezando e agradecendo ao coração de Jesus por tudo. Que ele nos guarde e proteja a sua benção!

  2. Importante reflexao em tempos tão dificieis.
    Rogo ao Amado Coração de Jesus, plena vivência das Virtudes da Humildade e da Mansidão; pois, o Mundo carece dessa Luz para poder fazer valer a Vontade de Deus.
    Cumprimentos fraternais à Diocese de Oliveira/MG.

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