ENCHEU-SE DE COMPAIXÃO

Mais de uma vez, os Evangelhos nos falam da compaixão de Jesus ou a demonstram nos seus gestos e palavras.
Ao saber da morte de João Batista por Herodes na fortaleza de Maqueronte, Jesus entrou num barco, desejando ir para um lugar deserto e afastado. Precisava rezar e viver o luto diante daquela notícia. Todos necessitamos desses momentos.
Quando Jesus viu a multidão que O seguia, faminta de sua presença, mudou de planos. O Pai O queria ali, junto do povo. Curou os doentes que havia e, quando chegou a tarde e os discípulos quiseram despedir as multidões para comprar comida, Ele os repreendeu com uma palavra que também é a nós dirigida: “Dai-lhes vos mesmos de comer! ” (Mt 14, 16) A resposta dos discípulos seria como a de todos nós, cuja fé é ainda pequena: “O que temos é muito pouco para servir a todos. Como repartir?” Jesus então pediu que lhe trouxessem os cinco pães e os dois peixes. Pediu-lhes que olhassem o que havia à disposição. A seguir, depois de organizar o povo na grama do campo, em gesto que será repetido na instituição da Eucaristia, “ergueu os olhos para o céu e pronunciou a benção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões” (Mt 14, 19b) ” E, cuidadoso, para que nada se desperdiçasse, depois que todos comeram, mandou que se recolhessem o que sobrou (cf. Mt 14,20). Eram doze cestos cheios. Ensinou-nos a não desperdiçar o que recebemos e que o pão se multiplica enquanto se reparte.
Ao multiplicar os pães, Jesus nos mostra que é preciso acolher o pão que Deus oferece (material e espiritual) e reparti-lo com todos os homens, único modo de alcançar a libertação do egoísmo e alcançar a liberdade do amor. Só o amor liberta. O egoísmo escraviza e destrói.
Como não pensar nas Doze Tribos de Israel e no novo Israel de Deus que é a Igreja, fundada sobre o alicerce dos Doze Apóstolos, chamados a saciar a todos com o Pão que dá a vida ao mundo, Jesus, Mestre, Palavra e Pão? “Ouvi-Me com atenção, e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento de vosso corpo (Is 55, 2b), diz Deus pelo Profeta Isaías. “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (Jo 6,51), dirá Jesus no Evangelho segundo São João.
A Eucaristia é sacramento, mistério e sinal. Misteriosa presença do Senhor entre nós só perceptível aos olhos da fé, e sinal da mesa posta para todos pelo Pai no seu Reino, anunciada pelo Profeta Isaías, ao convocar os exilados da Babilônia para encetar o caminho de volta à Terra Prometida. Caminhar, no entanto, não se faz sem sacrifícios, sem renúncias, sem colocar à disposição de Jesus os cinco pães e dois peixes de que dispomos, sem que nos coloquemos à sua disposição.
“A Igreja vive da eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contem em síntese o próprio mistério da Igreja” (São João Paulo II, EE, 1). A Eucaristia é sinal, não só do Reino que devemos acolher, como do compromisso cristão de nos empenhar pela realização da justiça e da paz neste mundo. Para isso, precisamos oferecer o que temos de melhor em nossa vida. Serão os cinco pães e os dois peixes que, nas mãos de Jesus, saciarão a fome do mundo. Porque os pobres, os famintos, os desesperados necessitam encontrar nos nossos gestos e palavras o testemunho do coração amoroso de Deus.
Pensemos na obra de São Vicente de Paulo e Santa Luiza de Marilac, de Santa Teresa de Calcutá e de Santa Dulce dos Pobres, no pequeno início das obras sociais que conhecemos como as APAEs, as APACs, as casas de recuperação de dependentes químicos; de acolhimento e educação de menores, como a Casa de Dona Dorica em Itaguara ou a Casa da Criança em Oliveira; nas 17 casas de acolhimento dos idosos em nossa diocese, das paróquias ou da SSVP, e tantas outras obras de caridade e assistência social. Reflitamos como foi o início das ordens e congregações religiosas e da Sociedade de São Vicente de Paulo, forjadas na renúncia e no sofrimento.
No Brasil, o primeiro domingo de agosto, Mês das Vocações, é consagrado aos ministros ordenados, os Bispos, padres e diáconos, em razão da proximidade da festa de São João Maria Vianney, patrono dos párocos. Também o ministério ordenado, especialmente dos sacerdotes, se forja no sofrimento e na renúncia. O padre é ministro da Paixão de Cristo. Em qualquer lugar ou situação, seja presencial ou nas redes sociais, deve ser sinal de Cristo. Ele deve agir sempre na pessoa de Cristo, que precisa encarnar em seus gestos, palavras e silêncios. Mas o sofrimento, acolhido com amor torna-se fonte de alegria em Deus!
Com o Salmista, afirmemos nossa fé: “O Senhor é justo em todos os seus caminhos e santo em toda obra que Ele faz. Ele está perto da pessoa que O invoca, de todo aquele que O invoca lealmente” (Sl 144, 17-18). E com o apóstolo São Paulo: Nada “será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 39b).
Peçamos a Maria, Rainha dos Apóstolos e Mãe dos Pobres e a São José, em cujo lar foi educado Jesus, único Sumo e Eterno Sacerdote, que tenhamos santas vocações e que o clero seja santo, de modo que todos possam ver em nós o sinal de Cristo. Rezemos pelos bispos e padres, de modo especial nesta primeira semana de agosto. E que o Espírito Santo nos conduza a todos.

+ Miguel Angelo Freitas Ribeiro

*Imagem: Aleteia

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