EUCARISTIA E LAVA-PÉS: MESMA LIÇÃO DO SENHOR

Homilia de Dom Miguel Ângelo Freitas Ribeiro por ocasião do início do Tríduo Pascal na Quinta-Feira Santa, celebrada em 29 de março.

 

Encerramos a Quaresma e entramos no Sagrado Tríduo Pascal.

Precedendo a Sexta-feira Santa e o Domingo da Páscoa, esta celebração tem amplo caráter profético, como antecipação dos acontecimentos do Calvário e seu significado salvífico, como anúncio da vontade de Deus e de seu plano para a humanidade, e como denúncia do mal que ainda nos envolve em sua teia.

Cristo, em sua última ceia, que antecipou de um dia da ceia dos judeus, se revela como o verdadeiro cordeiro pascal. O cordeiro daquela primeira páscoa dos hebreus, no dia de sua saída do Egito, foi alimento e sinal (Ex 12,3-4; 11-12). Alimento para a família, que devia comê-lo como um banquete cerimonial, e sinal, marcado nos umbrais e nas travessas das portas das casas, de modo a afastar a presença do anjo exterminador (Ex 12, 7. 12-13).  Hoje, o Sangue de Cristo marca a porta de nossos lábios na santa comunhão e afasta a presença do mal (São João Crisóstomo).

Na Ceia, Jesus antecipava sua entrega na cruz, quando o seu Sangue, de verdadeiro e novo Cordeiro, libertaria a humanidade inteira da escravidão do mal. Ele quis assim, naquela ceia derradeira, consagrar pão e vinho separados para significar de que morte iria morrer. Ao dar-se, corpo e sangue separados, Jesus denuncia toda a violência e a supera, na Paixão, ao reprimir a reação intempestiva de Pedro (Jo 18, 9-11); ao acolher os insultos dos soldados, dos sumos sacerdotes e da multidão (Jo 19, 1-15); ao silenciar diante de Pilatos e, na cruz, ao perdoar os inimigos e rezar pelos que o odiavam:  “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34)..

Seu corpo é verdadeiro alimento de salvação para a nova família, o novo povo de Deus, nascido da aliança selada pelo seu sangue divino.

Ao oferecer-se no pão e no vinho consagrados, Jesus oferece sua vida entregue na cruz, sua vida de ressuscitado presente na Eucaristia: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

No entanto, São João, ao relatar a Ultima Ceia, não nos conta o momento da instituição da Eucaristia, mas aquilo que a precede, quando o Senhor se inclinou e lavou os pés dos discípulos.

Ao lavar os pés dos discípulos e dar-nos o mandato de fazer o mesmo, Jesus aponta para novo modo de ser e de viver. Deu-nos o resumo de sua missão redentora, desde a encarnação no seio puríssimo de Maria, Virgem e Mãe.   Ele nos apontou o caminho da vida nova, da vida em abundância, o novo e único modo de exercer a autoridade se quisermos ser seus discípulos. “Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós seja o escravo de todos” (Mt 20,26). Fazer-se servo e dar a vida pelos amigos, esse é o seu caminho e deve ser o nosso caminho.

O mistério da Eucaristia, quando o Senhor se faz alimento no pequeno e simples pão de trigo, está, pois, inteiro também neste gesto do Senhor que se rebaixa, que se inclina a lavar e beijar os pés dos discípulos. Assim deve ser também nossa Eucaristia. Que ela se traduza sempre em missão e serviço, em missão anunciadora da alegria pascal do Ressuscitado e em serviço prestado ao que está ao nosso lado, com atenção ao menor e mais necessitado, com quem o Senhor se identificou de modo especial:“Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos a mim o fareis” (Mt 25,40).

Daqui a pouco, ao final da missa, continuaremos até a meia noite a nossa celebração. Estaremos com Jesus, em vigília de adoração e louvor, fazendo-lhe companhia no silêncio eloquente do tabernáculo: Jesus escondido à nossa espera, à espera de nosso amor.

Que a santa vigília seja memória e compromisso para com outras vigílias: aquelas da caridade cotidiana de quem está sempre pronto a praticar o bem e pronto para a hora em que, “como um ladrão pela noite” (1Ts 5,2), o Senhor irá chegar. Que Ele nos encontre acordados, como as virgens prudentes da parábola (cf. Mt 25,1-13). 

Vigie conosco a sempre Virgem Maria, vigiem conosco os anjos e bem-aventurados do céu, as almas do purgatório e, através de nosso desejo e oração, vigie toda a humanidade, também os que não creem, para que possam encontrar também a Deus.

Levemos, pois, com Jesus ao Horto (Mt 26, 36-46), todos os sofrimentos e esperanças humanas.  Levemos nosso compromisso com novo mundo, de paz, de justiça e de alegria. E que o amor seja o nosso pão de cada dia! Amém.

 

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