NOSSA GLÓRIA É A CRUZ

Esta celebração faz parte do mistério celebrado neste Sagrado Tríduo. Não isolamos a Paixão do Senhor da amplitude do mistério pascal e não podemos compreendê-la, senão à luz da Palavra de Deus que nos é solenemente proclamada, introduzindo-nos no sofrimento de Jesus, nosso Redentor.  Ao seu supremo sacrifício na cruz, nos unimos pela oração em favor de toda a humanidade, com um olhar que se inspira naquele do próprio Cristo, que abriu seus braços num abraço total que envolve toda a criação.

A Cruz, que traremos processionalmente ao altar será, pouco a pouco, desvelada, como se desvela o mistério do sofrimento humano e o de Cristo, à medida em que mergulhamos nosso coração, meditando a Palavra Divina.

Na cruz, nós adoramos Jesus Cristo, aquele que nela foi suspenso por nós e para nossa salvação. Esse o significado de nosso beijo, que devemos renovar todos os dias: A ele, exprimimos o nosso reconhecimento, quando beijamos o instrumento de seu suplício e de nossa reconciliação. Por isso, cantamos com o Apóstolo Paulo:“Nossa glória é a cruz, onde nos salvou Jesus! ” (Cf. Gl 6,14)

Nossa glória é a Cruz, porque nela o Salvador nos deu sua maior prova de amor por nós, dando-nos sua vida em sacrifício expiatório, colocando um ponto final em todos os antigos ritos sacrificais. Porque o que Deus quer de nós é a vida santa, que nos amemos uns aos outros como Ele nos ama. E Deus tanto amou o mundo que nos deu seu Filho Único. 

O que Deus quer é que creiamos naquele que ele enviou (Jo 6,29), que sigamos suas palavras, que nos fixemos em seu exemplo, que vivamos de sua vida, que nos tornemos um com ele e assim sejamos perfeitos como o Pai é perfeito.

Depois da contemplação do mistério da Cruz e da adoração de Cristo crucificado, a Liturgia nos faz entrar no mais íntimo do Mistério Pascal, a santa comunhão. Receberemos o Corpo do Senhor como nosso alimento e nos comprometemos com ele. Assim deve ser em cada missa da qual participamos. Batizados no seu sangue, mergulhados em sua morte, somos destinados à ressureição e a vida eterna em comunhão com ele.  Sublime mistério de seu amor que nos propicia a Igreja, com quem o Verbo encarnado se desposou nas núpcias da cruz.

Toda esta celebração solene de Sexta-feira Santa quer nos colocar, pois, em sintonia com aquele que deu por nós sua vida na cruz. A cruz é a maior prova de amor, porque ele se deu por inteiro, nada reservando para si e, ao oferecer-se inteiramente, retomou inteiramente sua vida na ressureição como disse. “Ninguém tira a minha vida, eu a dou livremente para de novo retomá-la” (Jo 10,17). Assim também nos exorta: “Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á” (Mt 16,25). E nós o amamos, damos a vida por ele ao oferecê-la nossa via a serviço dos irmãos.

Na cruz, Jesus soltou um grande grito que faz ressoar todo o salmo 21:  “Meu Deus, meu Deus porque me abandonastes? ”(Mt 24,46). Este grito ressoa ainda hoje em toda a terra no grito de todos os sofredores deste mundo por culpa ou sem culpa própria.

Devemos ajudá-los a rezar o restante do salmo recordado por Jesus ao morrer. “Porém, vós, Senhor, não vos afasteis de mim; ó meu auxílio, bem depressa me ajudai.” (Sl 21,23) e “Hão de se lembrar do Senhor e a ele se converter todos os povos da terra; e diante dele se prostrarão todas as famílias das nações, porque a realeza pertence ao Senhor, e ele impera sobre as nações. Todos os que dormem no seio da terra o adorarão; diante dele se prostrarão os que retornam ao pó. Para ele viverá a minha alma, há de servi-lo minha descendência. Ela falará do Senhor às gerações futuras e proclamará sua justiça ao povo que vai nascer: Eis o que fez o Senhor” (Sl 21, 28-31). Mesmo porque ele nos deu seu Espirito e nos deu sua Mãe como nossa mãe. E ele mesmo nos disse: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 13,32).

Em nossas cruzes não estamos sozinhos. Também estamos crucificados na cruz com Cristo para a esperança da glória.

E, caríssimos filhos e filhas, nesta liturgia somos chamados a oferecer um pouco do que temos em favor dos cristãos perseguidos na terra Santa, em favor da paz nos lugares santificados pela presença do Senhor. Um pouco de nossa pobreza em favor dos mais pobres, os cristãos perseguidos por causa da fé. Este é o sentido da coleta que faremos daqui a pouco e que enviamos à Obra Pia da Terra Santa.

Mas ofereçamos não somente nosso dinheiro, mas o abraço universal da oração e de nossos sacrifícios em união com a Paixão de Jesus! Amém.

†Miguel Ângelo Freitas Ribeiro, bispo diocesano de Oliveira/MG, por ocasião da celebração da Sexta-Feira Santa.

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