O AMOR É A LEI

Os judeus piedosos recitavam no mínimo três vezes ao dia o texto do Deuteronômio, que se convencionou chamar de “Shemá Israel”, isto é, “escuta Israel”, por se iniciar com essas palavras.

Quando um grupo de fariseus, sabendo que Jesus tinha feito calar os saduceus, reuniu-se para experimentá-Lo, um deles, certamente um doutor da Lei, se dirigiu a Jesus e perguntou-Lhe qual era o maior dos mandamentos. Na Torá como se denominava os cinco primeiros livros da Escritura, os rabinos elencaram 613 normas dadas por Moisés.

Jesus respondeu, recordando o que todos os judeus piedosos sabiam e recitavam de cor pela manhã, ao meio-dia e à noite: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento” (Mt 22,37-38). Coração, alma e entendimento significam a totalidade de nossa vida até a morte, como fará depois, Jesus em sua Paixão.

A seguir, Jesus acrescentou: “O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39), citando o livro do Levítico 19,18. E encerrou com a afirmação: “Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos” (Mt 22,40).

Desse modo, Jesus resume toda a Bíblia hebraica, “a Lei e os Profetas”, nestes dois versículos, retomando de modo positivo o que nas tábuas dadas a Moisés no Sinai, se encontra de modo negativo, como proibições. Tudo que foi escrito foi para que aprendamos esse amor.

Na Didaqué, o catecismo dos primeiros cristãos, se prescreve a oração do pai-nosso três vezes ao dia e, hoje, na liturgia oficial, também a Igreja o recita na oração da manhã, da tarde e na Santa Missa. E os cristãos piedosos, tantas outras vezes ao dia.

A caridade, o amor é a plenitude da Lei. No decálogo escrito nas duas tábuas da Lei, se encontram o modo de amar a Deus, nos três primeiros mandamentos e de amar o próximo, nos sete últimos.

A primeira leitura do domingo, tirada do Livro do Êxodo, é parte do chamado “Livro da Aliança”, e nos mostra como deve ser concretamente o amor a Deus e ao próximo, já que naturalmente cada um já ama a si mesmo.  Nele se listam os mais pobres entre os pobres e vulneráveis em Israel e ainda entre nós, em nossa sociedade: o estrangeiro, o refugiado, o órfão e a viúva. “Se (o pobre) clamar por mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso” (Ex 22, 26b).

Jesus que disse “Não julgueis que vim abolir a Lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição” (Mt 5,17), nos fortalece para guardar a lei de Deus com o dom do Espírito Santo, como anunciou o profeta Jeremias: “Eis a aliança que, então, farei com a casa de Israel – oráculo do Senhor: Eu lhe incutirei a minha Lei; eu a gravarei em seu coração. Serei o seu Deus e Israel será o meu povo. Então, ninguém terá encargo de instruir seu próximo ou irmão, dizendo: “Aprende a conhecer o Senhor”, porque todos me conhecerão, grandes e pequenos – oráculo do Senhor –, pois a todos perdoarei as faltas, sem guardar nenhuma lembrança de seus pecados.” (Jr 31, 33-34). Esta promessa se realiza em Pentecostes: “Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, irá ensinar-vos todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14,26). A vida cristã, por isso, deve ser vida no Espírito (cf. Rm 8).

Que possamos viver o que São Paulo escreve aos Tessalonicenses: “abandonando os falsos deuses, para servir ao Deus vivo e verdadeiro, esperando dos céus o seu Filho, a quem Ele ressuscitou dentre os mortos: Jesus, que nos livra do castigo que está por vir” (1Ts 5, 9b-10).

São os deuses falsos do prazer, da ganância e da vaidade, a raiz de toda a maldade humana: os afetos desordenados do sexo, o amor pelos bens e o dinheiro, e a vaidade. Não é à toa que, entre as atividades que mais movimentam dinheiro no mundo, estão a exploração sexual, o comércio de drogas, o tráfico de armas e os roubos de obras de arte e história. “Porque tudo o que há no mundo – a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida – não procede do Pai, mas do mundo” (1 Jo 2,16).

 Para saná-los são três exigências do Evangelho para todo cristão: o espírito de pobreza, a castidade de vida e a obediência da fé, tradicionalmente chamadas de “conselhos evangélicos”, creio que um pouco impropriamente, como se fosse uma exigência apenas para os cristãos de especial consagração, os sacerdotes e religiosos ou membros de institutos seculares.

Rezemos, pois, com o salmista: “Eu vos amo, ó Senhor! Sois minha força, minha rocha, meu refúgio e Salvador! Ó meu Deus, sois o rochedo que me abriga, minha força e poderosa salvação”.

Que o Divino Espírito Santo nos dê a reta compreensão e a graça de viver o que o Senhor nos ensinou.

Nossa Senhora e São José, modelos de discípulos, na pobreza, na castidade e na obediência, intercedam por nós.

+ Dom Miguel Angelo Freitas Ribeiro

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