UM POVO QUE PRODUZA FRUTOS

Neste domingo, a liturgia nos faz voltar à imagem de Israel como a vinha de Deus. Tanto o cântico de Isaías, um canto de amor de Deus por Israel, que o retirou da escravidão do Egito, como a parábola de Jesus nos apresentam a vinha de Deus como o povo da Aliança.

            Deus cercou-o de cuidados como a uma boa plantação, esperando que produzisse boas uvas, frutos de justiça, no respeito aos mandamentos e na fidelidade à Aliança. Mas, a vinha de Israel produziu uvas selvagens. Os arrendatários, os chefes do povo, não quiseram pagar a sua cota ao Senhor da vinha e Ele decidiu então entregá-la a outro povo, porque a vinha é boa, mas os arrendatários é que são maus. “A vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel e o povo de Judá sua dileta plantação. Eu esperava deles frutos de justiça – e eis injustiça; esperava retidão, obras de bondade – e eis iniquidade” (Is 5,7).

            A parábola de Jesus, contada quase às vésperas de sua condenação e morte na cruz, resume toda a história da Aliança de Deus com o povo de Israel e o nascimento da Igreja, novo povo de Deus. 

            Deus enviou seus mensageiros aos arrendatários da vinha, os profetas, e, por último, o seu Filho, mas eles O rejeitaram e O mataram fora da vinha. Imagem que nos remete à crucifixão do Senhor em Jerusalém-Israel, pois o Calvário se situa fora dos muros da antiga cidade de Sião. Os chefes do povo desejavam a vinha de Deus unicamente para si. Jesus então disse aos seus interlocutores, “os sumos sacerdotes e anciãos do povo” (cf. Mt 21,32), que  o Reino de Deus lhes seria tirado e entregue a um povo que  produzisse frutos de amor, de paz, de justiça, de bondade e de misericórdia (cf. Mt 21, 43) e, citando o Salmo 118,22,  revelou-se como “a pedra que os construtores rejeitaram e se tornou a pedra angular” (Mt 21,42b).

.           Mas será que esta parábola se aplica somente aos chefes daquele tempo? Certamente, não. O Evangelho é viva Palavra de Deus para nós hoje. A pergunta feita a todos nós, especialmente aos que desempenhamos na Igreja e na sociedade cargos de chefia e pastoreio, será sempre esta: “Produzimos frutos de justiça?”.

             Olhando para a realidade de nosso mundo, constatamos muitas coisas bonitas e boas, mas também o tanto que precisamos melhorar em nossas relações pessoais, e sociais. A superação da miséria, a distribuição mais equitativa dos bens, a garantia dos direitos pessoais e sociais, o respeito aos irmãos e o compromisso com a não violência física ou por palavras precisam amadurecer entre todos. 

            Ainda hoje, muitos mandatários do poder não se preocupam com o povo, mas com seus interesses, sua carreira, sua vaidade, seu prazer, seu dinheiro ou sua reeleição. Estão sempre presentes nos noticiários os sucessivos escândalos morais, de corrupção política, administrativa ou eleitoral em todas as instituições. Estão aí as fake news, as calúnias e noticias falsas dos que desejam o poder a qualquer custo. Mas, para Jesus, maior é aquele que serve melhor (cf. Mt 20,26). Os homens de Igreja não estão livres das mesmas tentações.

            Estão aí as eleições municipais. A parábola de Jesus nos interpela nestes dias também sobre um novo modo de fazer política. Está em nossas mãos alguma possibilidade de mudança, ao menos dando nossa pequena contribuição através de uma campanha eleitoral limpa, baseada na ética e no respeito e o voto responsável. Para isso, como pastor dessa porção do rebanho de Cristo, publicamos algumas orientações, Solicitamos aos fiéis católicos e demais pessoas de boa vontade, que as leiam com atenção.

            Também o Papa Francisco assinou, neste final de semana em Assis, uma nova encíclica sobre a fraternidade universal, tão importante em tempos de pandemia e no tempo que nos virá: Fratelli tutti ou Todos irmãos.

            Não nos esqueçamos da palavra de Jesus no evangelho de São João: “Eu vos escolhi foi do meio do mundo, a fim de que deis um fruto que permaneça”. (Jo 15,16).

            Os que somos da vinha de Deus somos chamados a viver na alegria (cf. Fl 4, 4-7), na ação de graças (cf. Fl 4,6b) e  na serenidade, respeitando o que é “verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor”. (Fl 4,8) São esses os frutos que Deus espera da sua “vinha”. Então, não necessitaremos nos inquietar com coisa alguma (cf. Fl 4, 4).

            Rezemos, pois, com o salmista: “Convertei-nos, ó Senhor Deus do Universo, e sobre nós iluminai a vossa face! Se voltardes para nós, seremos salvos”! (Sl  79)

            Nesse mês do Santo Rosário, iluminados pela contemplação dos mistérios de Cristo, deixemo-nos conduzir por Maria e José. Eles nos ensinarão a produzir frutos de salvação neste mundo conturbado em que vivemos, cheio de incertezas e indefinições. Mas, o Senhor é a nossa rocha e protetor, a fortaleza bem defendida que nos salva (cf. Sl 18).

+ Dom Miguel Angelo Freitas Ribeiro


Imagem: oratoriosaoluiz.com.br

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