A QUARESMA E A CAMPANHA DA FRATERNIDADE

Cristo é a nossa Paz: do que era dividido fez uma unidade”.

Com a Quarta-feira de Cinzas, abrimos, em comunhão com toda a Igreja, os exercícios quaresmais, em preparação para a Páscoa do Senhor. Tempo de jejum, oração e de renovação do exercício da caridade.

Com a Igreja no Brasil, celebramos, desde o seu início na década de 60, a Campanha da Fraternidade. Este ano nos traz como inspiração o tema da Carta de São Paulo aos Efésios, que nunca deixará de ser para nós um desafio à conversão e à penitência: “Cristo é a nossa paz, do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2, 14a) e, como tema: “Fraternidade e diálogo, compromisso de amor”. Tema e lema são atualíssimos, em tempo de polarizações ideológicas, de esquerda ou direita, e de banalização da violência, e nos convidam a voltar ao Evangelho da conversão, anunciado por Jesus para que participemos do seu Reino.

O Papa Francisco em sua Mensagem para esta Quaresma nos recorda que “cada etapa da vida é um tempo para crer, esperar e amar. Que este apelo a viver a Quaresma como percurso de conversão, oração e partilha dos nossos bens, nos ajude a repassar, na nossa memória comunitária e pessoal, a fé que vem de Cristo vivo, a esperança animada pelo sopro do Espírito e o amor, cuja fonte inexaurível é o coração misericordioso do Pai”. A Campanha da Fraternidade, como apelo de conversão pessoal e social, nos convida a viver este espírito.

Os subsídios preparados pela CNBB sempre foram para ser adaptados em cada diocese. O Texto-base, por ser elaborado por diferentes confissões cristãs, nessa 5ª. Campanha ecumênica precisa ser lido, como todos os anteriores, à luz da Palavra de Deus, do Magistério da Igreja e do Catecismo da Igreja Católica, fontes seguras de fé. Não deve ser motivo para falácias, agressões mútuas e polarizações, que ferem o próprio espírito do Evangelho. O Senhor Jesus pediu ao Pai, em sua oração sacerdotal, seu testamento de amor: “Para que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste. Dei-lhes a glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim” (Jo 17, 21-23).

A humanidade vive sempre o problema da divisão, da separação e da exclusão. Também a Igreja de Deus que, no princípio, era um só coração e uma só alma, pois “todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum” (At 2,46) se viu, no decurso dos séculos, ferida pelas divisões, fruto do pecado, especialmente após a Reforma Protestante.

Ao nos convocar nesta Quarta-feira de Cinzas, a um dia de jejum e de penitência pública, da qual são sinais as cinzas sobre a nossa cabeça; e a 40 dias na Quaresma, na penitência, na oração e no jejum silenciosos, como nos exorta o Senhor no Evangelho de hoje, a Igreja nos convida a voltar-nos para Deus, enquanto temos tempo: “Não é, acaso, uma luta a vida do homem sobre a terra?” (Jó 7,1a).

Convoca-nos a buscar viver os valores do respeito à dignidade de cada pessoa e ao diálogo fraterno com aqueles que pensam de modo diferente do nosso, no ecumenismo com as outras comunidades cristãs e no diálogo com os não cristãos. Essas atitudes nos exigem mansidão e humildade de coração como o Senhor nos ensina e nos exorta a um constante aprendizado: “Tomai meu jugo sobre vós e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas” (Mt 11,29).

Só podemos dialogar de verdade, se temos consciência e clareza sobre a fé que professamos. Voltemos, pois, à oração, à Palavra de Deus e ao Catecismo e nos deixemos orientar pelo Magistério autêntico da Igreja expresso nos documentos pontifícios e na segura orientação dos bispos. Santo Irineu, a este respeito, nos recorda na Carta aos fiéis de Esmirna: “Nada sem o bispo”. Para isso, nossa diocese tem preparado, a cada ano, o material para a Campanha da Fraternidade, disponível no site próprio. Possamos aproveitá-lo em toda sua riqueza.

Terminamos com as palavras do Papa Francisco na abertura da CF deste ano: “Os cristãos brasileiros, na fidelidade ao único Senhor Jesus que nos deixou o mandamento de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou (cf. Jo 13,34) e partindo ‘do reconhecimento do valor de cada pessoa humana como criatura chamada a ser filho ou filha de Deus, oferecem uma preciosa contribuição para a construção da fraternidade e a defesa da justiça na sociedade’ (Carta Enc. Fratelli tutti, n. 271). A fecundidade do nosso testemunho dependerá também de nossa capacidade de dialogar, encontrar pontos de união e os traduzir em ações em favor da vida, de modo especial, a vida dos mais vulneráveis. Desejando a graça de uma frutuosa Campanha da Fraternidade Ecumênica, envio a todos e cada um a Bênção Apostólica, pedindo que nunca deixem de rezar por mim”.

Rezemos uns pelos outros, pela nossa conversão e para que possamos viver a Páscoa da reconciliação e da paz.

Que a Virgem Maria, Senhora da Reconciliação, seu esposo São José e São Sebastião intercedam por nós.

Dom Miguel Angelo Freitas Ribeiro

2 comentários sobre “A QUARESMA E A CAMPANHA DA FRATERNIDADE

  1. Tudo com Cristo…nada sem Maria.
    Unidade na Verdade que é Deus.
    Obrigada D. Miguel pela sua coerência. A divisão nunca vem de Deus…: “nem de Paulo nem de Apolo…” só Cristo pode nos unir na Verdade e no amor.

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