O NOVO TEMPLO DE DEUS

A Antiga Aliança se firmava na observância da Torá (Lei) e no Templo de Jerusalém. Jesus não veio abolir a Lei, mas levá-la à plenitude (cf. Mt 5,17). Na primeira leitura deste Domingo da Quaresma, vemos a apresentação da Lei de Deus ao povo através de Moisés. O livro do Êxodo nos dá uma versão mais estendida que o resumo habitualmente usado por nós na catequese. Três mandamentos se referem diretamente às nossas obrigações para com Deus que tudo nos concedeu: Amá-Lo sobre todas as coisas e adorá-Lo, porque Ele é o Santo, não pronunciar o seu Nome em vão (falso juramento, piadas com o Nome de Deus) e guardar o Dia do Senhor (para os judeus o Sábado e, para nós, o Domingo) como dia especial consagrado a Deus e antecipação do repouso eterno. Os outros mandamentos se referem ao próximo e a nós, em razão da santidade da vida de todos os homens que é sagrada, separada por Deus, de modo distinto das demais criaturas, porque nos criou à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,27). Assim, os mandamentos são o caminho para uma vida feliz, para experimentarmos o Reino a nós prometido. Se todos observassem os mandamentos, viveríamos felizes, sem divisões ou contendas, e poderíamos dispensar as forças de segurança, o poder judiciário e todo o aparato de governo.

O Templo de Jerusalém era considerado para os judeus a Casa de Deus. Também para Jesus e os apóstolos, que eram também judeus de raça e religião. No tempo da Páscoa, Jesus foi ao Templo e ali encontrou, no chamado Pátio dos Gentios, onde os pagãos poderiam também rezar, o burburinho do comércio de animais para os sacrifícios e os cambistas, que trocavam as moedas dos peregrinos pela moeda judaica, porque outras não poderiam ser ofertadas no Templo. Prestavam realmente um bom serviço, porque milhares de judeus na ocasião se dirigiam a Jerusalém para as festas e deviam oferecer seu sacrifício. Era-lhes impossível trazer animais de tão longe. Mas, Jesus então tomou uma atitude inusitada naquele dia. Tomado de santa ira, “fez um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio! ” (Jo 2,16) Porque faziam comércio no local de oração reservado aos pagãos que iam adorar o Deus de Israel, e não fora do Templo ou nos seus arredores. E o Templo deveria ser casa de oração para todos os povos (cf. Is 56,7 – Mc 11,17).

Diante da indignação e espanto de todos, os judeus lhe perguntaram que sinal lhes dava para agir daquele modo. Como de outras vezes, Jesus não lhes dá um sinal, mas diz uma frase enigmática que, somente após sua ressurreição, os discípulos compreenderiam: “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei” (Jo 2,19). Os judeus então lhe recordam que para a construção do Templo tinham sido gastos quarenta e seis anos!

Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa me consumirá” (Jo 2,17). E que Jesus falava do templo do seu corpo.Posteriormente, o Templo de Jerusalém foi destruído, mas Jesus, em pessoa, é o verdadeiro Templo onde Deus habita, por ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem: “O Verbo Se fez carne e armou sua tenda entre nós” (Jo 1,14)

A compreensão de todo este mistério passou pela cruz. É o que nos diz São Paulo quando escreveu aos Coríntios a grande cidade onde havia gente de toda parte e muitas religiões pagãs: “Os judeus pedem sinais milagrosos, os gregos procuram sabedoria; nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos. Mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, esse Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é dito insensatez de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é dito fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Cor 1,22-24).

Jesus, verdadeiro Templo de Deus nos associou a Si, como membros de seu corpo, pelo sacramento do Batismo (cf. 1 Cor 12,27). Deste modo, cada batizado é verdadeiro templo de Deus em nossa integridade corpo e alma, na qual devemos oferecer ao Pai, em união com Jesus, nosso sacrifício espiritual: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual” (Rm 12,1). O cuidado conosco e com nossos irmãos é, pois, parte integrante de nossa fé.

Que a Sempre Virgem Maria e seu esposo São José nos acompanhem em nossa subida para o Alto, ao encontro definitivo do Senhor do Templo. Amém.

+ Dom Miguel Angelo Freitas Ribeiro

  • Imagem: reprodução de pintura de El Greco (1600)

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