O PÃO QUE DESCE DO CÉU

O povo havia se esquecido de que sua escravidão no Egito fora encerrada por intervenção de Deus e murmurava contra Deus e Moisés: “Quem dera que tivéssemos morrido pela mão do Senhor no Egito, quando nos sentávamos junto às panelas de carne e comíamos pão com fartura! Por que nos trouxestes a este deserto para matar de fome a toda esta gente? ” (Ex 16, 2) Desconheciam o valor da liberdade conquistada.

Moisés se fez porta-voz da insatisfação dos israelitas e pediu a Deus que tivesse pena do povo com fome de pão e carne. O Senhor disse a Moisés: “Eis que farei chover para vós o pão do céu. O povo sairá diariamente e só recolherá a porção de cada dia a fim de que eu o ponha à prova, para ver se anda ou não na minha lei. Eu ouvi as murmurações dos filhos de Israel” (Ex 16,11-12). E Deus providenciou o maná e as codornizes, que lhes forneceram carne em abundância até que chegassem à Terra Prometida. Mas, fixados no presente dado por Deus, se esqueciam sempre do doador do dom.

O mesmo aconteceu com Jesus. Após a miraculosa multiplicação dos pães e de ter atravessado o mar da Galileia andando sobre as águas, quiseram fazê-lo rei. Um rei que lhes desse pão em abundância, de modo que lhes pouparia o trabalho de semear e trabalhar o grão. Daí a bondosa censura de Jesus à multidão que o seguia: “Em verdade, em verdade, eu vos digo: estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos. Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará. Pois este é quem o Pai marcou com seu selo” (Jo 6,26-27).

Então perguntaram a Jesus sobre a obra que deviam fazer para agradar a Deus. Mais que buscar o pão, deviam buscar o doador do pão, respondeu-lhes. A obra que agrada a Deus é a fé em Jesus, o Enviado do Pai (cf. 6,29).

Mas, aos israelitas não lhes bastavam os sinais, nem mesmo a multiplicação dos pães. Por este motivo, recordaram os dias do Êxodo, em que Deus dera ao povo o pão do céu, o maná. Queriam um pão melhor que o maná, que cessara de cair quando chegaram à Terra Prometida.

Jesus então se revelou como o verdadeiro pão que desceu do céu, dá a vida ao mundo e sacia a fome e a sede de todos os que O encontram (cf. Jo 6,32-34). Há uma fome maior na alma de todos nós que a do pão material: a fome de sentido e a fome de vida eterna. “O homem se nutriu do pão dos anjos”, reza o Salmo 77. Jesus anuncia assim o pão que nos daria na Última Ceia, o seu Corpo e Sangue na Eucaristia. Quem se afasta da Eucaristia se afasta de Deus. Mas, a Eucaristia se compreende apenas pela fé.

Corremos o risco de, em tempos de uma “teologia da prosperidade” buscar a Deus, buscar a Jesus, somente pelo que Ele nos pode dar, mas não por sua pessoa. Esta a tentação que esvazia a religião e cria indiferentes e ateus.

Na Eucaristia devemos buscar cada dia a Jesus. Por ela, é alimentada da nossa fé, a nossa esperança e crescemos na caridade. O Apóstolo São Paulo, por isto, nos exorta: “Renunciando à vossa existência passada, despojai-vos do homem velho, que se corrompe sob o efeito das paixões enganadoras, e renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade. Revesti o homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4, 22-24).

Peçamos a intercessão da Sempre Virgem Maria e de São José, para que nunca percamos a fé e busquemos cada dia a Jesus, em sua Palavra viva e na Eucaristia. Assim, também desejaremos encontrar a Jesus no irmão. Amém.

+ Dom Miguel Angelo Freitas Ribeiro

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