OS DOIS REINOS

Na primeira leitura de hoje, no relato poético das consequências da queda de Adão, vemos também a promessa de salvação. Na maldição da serpente, símbolo do diabo, de acordo com o Apocalipse, Deus diz: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Ela te esmagará a cabeça e tu de lançarás contra o seu calcanhar” (Gn 3,15). Jesus, o descendente da Mulher, portanto, filho de Eva, o Filho de Maria, pelo seu ministério e pela oferta de sua vida na cruz é Quem esmaga a cabeça da serpente. Maria, pela sua maternidade, participa deste mistério redentor.

Jesus, no evangelho de hoje, também fala de dois reinos opostos. Os seus parentes se preocupavam com as multidões que cercavam Jesus e também com suas curas e exorcismos e desejam protegê-lo, achando que estava fora de si (cf. Mc 3, 20). Os escribas e mestres, vindos de Jerusalém, acusam a Jesus de ter parte com Belzebu, o príncipe dos demônios, razão do sucesso de suas curas e exorcismos (cf. Mc 3,22). Belzebu é palavra hebraica que se aplica ao demônio: ‘baal’, senhor das moscas ou da morte. Jesus lhes respondeu com duas parábolas distintas. Um reino dividido contra si mesmo não sobreviverá por isso, o seu argumento é completamente irracional (cf. Mc 3, 23b-26).

A segunda parábola se refere a um homem forte que amarra o inimigo para roubar seus bens (cf. Mc 3,27) Este homem forte é Jesus que amarra e destrói o poder de Satanás seu reino, “roubando-lhe” os que estão presos em suas cadeias.

Jesus realiza o bem em nome de Deus, pelo Espírito Santo que nele habita. Então, diz de um pecado contra o Espírito Santo, a blasfêmia contra o Espírito Santo, pecado sem perdão. O pecado em atribuir ao demônio o que é obra de Deus. Dizer que o mal é bem e o bem é mal. Não existe pecado mais grave do que falar mal do Espírito de Deus. E Jesus é o Messias, que vem com o poder de Deus (cf. Mc 3, 28-30).

O catecismo diz que o pecado contra o Espirito Santo é a recusa radical de Jesus e de sua remissão, a recusa radical em converter-se, do homem que se fecha no pecado e torna assim impossível sua conversão. Tudo pode ser perdoado no sacramento da Penitência menos a falta de arrependimento. A recusa, pois, deliberada e obstinada da misericórdia de Deus que leva à impenitência final e à perdição eterna ou inferno. E hoje, o mundo perdeu o sentido do pecado, facilmente diz que o mal é bem e o bem é mal. Esta é a ruína de nossos tempos.

O final do trecho evangélico nos mostra que Maria e seus irmãos, quando Jesus terminou de responder os fariseus e ensinava dentro de sua casa, chamaram-no para fora. Jesus aproveitou-se da ocasião para falar de uma família mais ampla, a família dos que creem, daqueles que escutam e praticam a Palavra de Deus, dos chamados a ser Igreja. Na família de Deus, a prioridade absoluta deve ser a obediência a Deus sobre todas as coisas (cf. Mc 3,31-35). E Maria, pelo seu sim, da anunciação à cruz, foi a quem mais ouviu e cumpriu a vontade de Deus (cf. Lc 1,45; 2,19).

Santo Inácio de Loyola nos seus célebres Exercícios Espirituais, nos diz que necessitamos sempre optar em lutar sob uma das bandeiras: a de Cristo ou de Satanás, do bem ou do mal. Optar pelo bem é lutar contra tudo que nos impede e aos nossos irmãos de cumprir a vontade de Deus e destrói a fraternidade. O vício de consumo, do sexo, das drogas, da ganância e toda opressão, que impede a liberdade dos filhos de Deus. Esta a lição maior que devemos guardar neste domingo. Sem nos esquecermos de rezar pela conversão dos pecadores e pela perseverança dos justos, sabendo que, na fila dos pecadores, seremos sempre o primeiro.

Que a Santa Virgem Maria, Refúgio dos Pecadores e seu esposo São José intercedam por nós.

+ Dom Miguel Angelo Freitas Ribeiro

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