SE O GRÃO DE TRIGO NÃO MORRE…

O profeta Jeremias anunciava um tempo em que Deus faria uma Nova Aliança com seu povo. “Imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo. Não será mais necessário ensinar seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor! ’ Todos me reconhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor, pois perdoarei sua maldade, e não mais lembrarei o seu pecado” (Jr 31,33-34).

Antes de sua entrega na cruz, Jesus, na Última Ceia, tomou o pão e o consagrou como seu Corpo e o cálice com vinho, como seu Sangue, e referiu-se exatamente a uma aliança nova: “Tomou (…) o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e o deu aos seus discípulos, dizendo: ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim’. Do mesmo modo, tomou também o cálice, depois de cear, dizendo: ‘Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós’ (Lc 22, 19-20).

E, exatamente às vésperas de sua Paixão, alguns gregos que tinham ido adorar em Jerusalém por ocasião da Páscoa, foram em busca de Filipe e André. Eles, porque traziam nomes gregos, devem ter lhes despertado maior confiança. Pediram-lhes então que os levasse a Jesus. A resposta de Jesus aos dois apóstolos parece não ter a ver com o pedido dos gregos. Jesus fala da proximidade de sua Hora, a que tantas vezes anteriormente se referira como ainda não chegada: “Chegou a Hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado” (Jo 12,23b).

Ao referir-se à sua Hora e sua Glória, Jesus indica a sua Paixão, Morte e Ressurreição e à humana angústia diante da cruz que se aproximava. “Agora sinto-Me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-Me desta hora! ’? Mas foi precisamente para esta Hora que Eu vim. Pai, glorifica o teu nome! ” (Jo 12,27) Sua oração é a mesma que fará no Horto, porque a carne é fraca, mesmo que o espírito esteja preparado (cf. Mc 14,38). “Porque não temos nele um pontífice incapaz de compadecer-se das nossas fraquezas. Ao contrário, passou pelas mesmas provações que nós, com exceção do pecado.” (Hb 4,15).

Sua resposta é a da obediência daquele que veio não para fazer a sua vontade, mas a do Pai que O enviou (cf. Jo 5,30). A vontade do Pai, certamente, não era a morte do Filho, mas se alegra com sua fidelidade até o fim. Por isso, outra vez se abrem os céus e se ouve a voz do Pai: “Eu O glorificarei e O glorificarei de novo” (Jo 12,28b). A primeira glorificação foi na encarnação do Verbo que se fez carne e manifestou-se no seu Natal: “Nós vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14b).

Jesus na cruz glorifica o Pai ao salvar todos os homens, judeus e pagãos, formando um só povo: “Porque é Ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava Ef 2,14).

A glória de Jesus é a salvação do homem das amarras do pecado e das mãos do diabo, vencido para sempre pela sua obediência filial, em contraposição à desobediência de nossos primeiros pais no Paraíso: “É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, e Eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,31-32).

Sua cruz será o permanente atrativo de todas as almas que buscam a Deus e nele colocam sua esperança. “Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

A cruz é o sinal de que devemos seguir Jesus em todo o tempo, fazendo morrer em nós as marcas do pecado e os vícios que nos afligem. “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quer servir, siga-Me, e onde Eu estou estará também o meu servo. Se alguém Me serve, meu Pai o honrará ” (Jo 12, 24-26).

Não devemos nos apegar à vida neste mundo, mas ter os olhos e o coração na vida que há de vir. “Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova” Jo 6,3-4).

Jesus é o grão de trigo, morto e sepultado, que produz frutos de ressureição e perdão. Participamos deste fruto pelo Batismo e pela Eucaristia, onde se renova o mistério de sua Páscoa (cf. 1 Cor 11,17-33) e nos é garantida a vida eterna (cf. Jo 6,51). Nada pois nos separará de seu amor (cf. Jo 8, 38-39). Ele é “causa de salvação eterna para todos que Lhe obedecem” (Hb 5,9).

Neste tempo de distanciamento social, em que, mais uma vez, celebraremos a Semana Santa a partir de nossas casas, acompanhando as transmissões pelas mídias sociais, possamos desejar sempre mais a Eucaristia e viver dela. De nossos lares, façamos em espírito nossa adoração a Jesus oculto nas espécies eucarísticas, mas presente entre nós até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20).

Para melhor celebrar em nossas Igrejas domésticas, a Diocese de Oliveira preparou uma Novena em Preparação para a Páscoa. Não deixemos de aproveitar este valioso subsídio.

Que a Imaculada Virgem das Dores e seu castíssimo esposo São José intercedam junto a Jesus por todos os que sofrem e pelo breve fim da pandemia que experimentamos. Rezemos uns pelos outros.

+ Dom Miguel Angelo F. Ribeiro

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